Augusto Mateus sobre a Economia Portuguesa
O sistema fiscal português é sempre algo de controverso: muitos empresários qualificam-no de demasiado elevado. O que pensa sobre isto Augusto Mateus, Ministro da Economia de Guterres? Ora, podemos dizer que o problema para este especialista não está tanto no volume de impostos que são cobrados, antes na forma como se faz a sua colecta. «Temos um sistema fiscal complicadíssimo, burocrático, com inúmeros alçapões». Sobre o panorama geral do país, Augusto Mateus alerta para a necessidade de passarmos de uma economia da oferta para uma economia da procura, com a valorização de coisas como a internacionalização, os serviços ou a distribuição. Vida Económica - Portugal está em recuperação, segundo o Governo e o Banco de Portugal.
Tem a mesma perspectiva, a mesma visão optimista da nossa economia?Augusto Mateus - Nós, em Portugal, discutimos muitos números, algo que não faz grande sentido. Números são números e, em princípio, aqueles que estão disponíveis são os melhores possíveis.
Não podemos, contudo, esquecer que a Europa cresce, hoje, bastante menos do que já cresceu no passado e menos do que os outros blocos supranacionais das zonas mais industrializadas e desenvolvidas, verificando-se o mesmo em relação ao novo bloco dos grandes países emergentes. Dentro desse crescimento diminuto, Portugal tem um crescimento um pouco mais diminuído. Este é, digamos, se quiser, o problema estrutural que nós temos.
Do ponto de vista conjuntural, a Europa tem vindo a sair de um ponto de depressão. Há, no entanto, ritmos de crescimento desiguais, com diferenças muito significativas entre as diferentes economias. O que faz com que esta saída da depressão seja feita aos ziguezagues, não de uma forma sustentada. Temos oscilado entre uns momentos mais optimistas e outros mais pessimistas.
Apesar de tudo, existem alguns pontos sólidos. Temos o exemplo de países como a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, os quais registam um crescimento económico que conseguiu, conjunturalmente, algum dinamismo. Depois, dentro da União Europeia, temos, obviamente, os novos Estados-membros com um crescimento muitíssimo mais elevado.VE - Há pouco falou dos problemas estruturais. O que mais o preocupa nesta área?AM - Nós temos um problema estrutural que consiste no facto de nós ainda nos mantermos muito numa economia de oferta quando deveríamos estar muito mais numa economia de procura.
Uma coisa é eu produzir primeiro e vender depois, outra coisa é ter uma articulação entre produção e procura. Em primeiro lugar, identifico necessidades, vejo que posso satisfazer essas necessidades e organizo-me para, muitas vezes, produzir já depois de ter vendido. Neste contexto, a economia portuguesa continua inserida numa lógica de insuficiente articulação entre agricultura, indústria e serviços, entre produção e distribuição. O mesmo se pode dizer em relação à internacionalização, também ela insuficiente, continuando nós, eventualmente, a investir de forma excessiva na lógica estrita de produção. Isso cria uma dificuldade muito grande que é expressa num grande problema estrutural da economia portuguesa: o facto de termos uma produtividade física com limites, mas bastante melhor do que a produtividade/valor. Ou seja, o nosso aumento da produtividade depende muito de uma mudança da nossa economia rumo a uma maior internacionalização, a uma maior capacidade de distribuição, a uma diferenciação da produção. Se nós nos deixarmos ficar como nos deixamos ficar muito numa lógica de transformação intermédia de produtos, só poderemos contar com más surpresas.
É óbvio que ninguém vai fazer coisas muito sofisticadas na área das cablagens, por exemplo, ou na área das componentes para automóveis, com salários que já não são tão competitivos como o foram quando essa vaga de investimentos se realizou. Há mais de 10 anos que chamo a atenção para estas matérias.
Nós temos, por exemplo, uma fortíssima capacidade industrial na área dos têxteis-lar, mas já não somos muito relevantes sob o ponto de vista da cadeia de valor integrada. Não temos, muitas vezes, capacidade para desenvolver modelos de distribuição, modelos de loja, para fazermos investimentos de proximidade em relação aos grandes mercados consumidores e, como tal, alguém faz. A nossa produtividade volume que até nem é tão baixa como, às vezes, as pessoas pensam, é diminuída por ocuparmos nas grandes cadeias de valor internacionalizadas as posições que libertam mais valor. Esse é um grande problema estrutural.
Outro grande problema estrutural que temos, em Portugal, é uma inadaptação àquilo que foram as profundas mudanças territoriais e organizacionais de uma Europa alargada e de um mundo global. Frequentemente, perdemos tempo a dizer que as regiões mais próximas do nosso principal parceiro comercial, a Espanha, são as do Interior. Já foram quando o nosso principal parceiro comercial era o Reino Unido.VE - Não podemos esperar pelo crescimento dos outros países europeus...AM - O nosso problema estrutural é, grosso modo, um problema de insuficiente internacionalização, de insuficiente valorização dos serviços e da distribuição - confundimos, muitas vezes, uma zona industrial com um sítio onde uma fábrica se pode implantar e não com um domínio empresarial, onde há serviços, onde há racionalidade, onde há baixos custos, porque se funciona em rede, porque se partilham redes e infra-estruturas - e é um pouco nessa linha que nós podemos enfrentar os nossos problemas.
Mas eu tenho insistido nisto: Portugal não vai recuperar o crescimento perdido. Portugal ou cria um novo modelo de crescimento ou não pode voltar a crescer a taxas suficientes, capazes de satisfazer as expectativas da população portuguesa. Não podemos esperar que a Espanha, a Alemanha ou a França cresçam um pouco mais. Aliás, no contexto europeu, em que países foi mais posto em causa o modelo competitivo? Aqueles que têm um nível de educação mais baixo e salários menos competitivos.VE - Considera que este Governo está a tomar as medidas correctas em relação a esta mudança de paradigma?AM - Não creio é que estas coisas possam ser discutidas em função do que o Governo faz ou deixa de fazer.VE - As empresas portuguesas queixam-se muito do volume de impostos, em Portugal. Estes, no seu entender, são demasiado altos. Será mesmo assim?AM - Eu não creio que o problema se situe ao nível da carga fiscal, situa-se ao nível, digamos, de outras características. Eu penso que seria muito mais interessante - e tenho insistido muito nisso ter um sistema fiscal amigo do crescimento e só temos um sistema fiscal amigo do crescimento quando o próprio sistema fiscal assume correr riscos.
Não consigo encontrar, na análise histórica do desenvolvimento das economias dos últimos 150 anos, nenhum caso de sustentabilidade em que o Estado fosse forte sem ser com base numa economia também ela forte. Quando um Estado é forte e a economia fraca, o primeiro não vai a lado nenhum. Nunca vi crescimento da receita fiscal a não ser com base numa base económica competitiva das empresas.
Eu acredito em sistemas fiscais simples, com muito mais regras e muito menos discricionariedade. Nós temos um conjunto de situações, nomeadamente, ligadas ao serviços às famílias, onde se podia ter uma situação muito mais simples. Não é assim tão complicado determinar, digamos, uma forte aproximação àquilo que é o volume de actividade de uma pastelaria ou de uma lavandaria. Há milhentas actividades de serviços finais onde o volume de actividades poderia ser determinado de uma forma, perfeitamente, escorreita e simplificada.
Devia existir um mecanismo de tributação simplificado, as pessoas que estavam em dia com os seus impostos, pagavam-nos de uma forma simplificada, aumentando-se, assim, drasticamente a receita fiscal. Temos um sistema complicadíssimo, burocrático, com inúmeras alçapões. Quanto mais burocrático e mais pesado é o sistema, mais alçapões há para mecanismos, digamos, de evasão, enfim, de ineficiência na cobrança.
Se há alguns que questionam a importância do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) na promoção da economia portuguesa, o mesmo não podemos dizer de Augusto Mateus. As suas palavras à «Vida Económica» são reveladoras: «O QREN tem um papel muito importante» ou não estivéssemos a falar de quantias avultadas. «Vamos ter à volta de 20 mil milhões de euros para utilizar desde o segundo semestre de 2007 até 2013», destaca este antigo Ministro da Economia de Guterres. E será que podemos continuar a fazer tudo da mesma forma?
Já sabemos pela apresentação que acaba de ser feita por José Sócrates que vamos ter um QREN mais selectivo e rigoroso. Augusto Mateus, na entrevista que nos dá, não deixa de destacar estes aspectos e fala daquilo que Portugal deve fazer se quiser, como diz, seguir «as regras do jogo». «Com estes 20 mil milhões de euros vamos ter que fazer poucos projectos, muito menos do que estamos habituados». Mas podemos dizer que as recomendações deste especialista não ficam por aqui. Portugal terá que utilizar uma parte substancial das verbas no cumprimento da Estratégica de Lisboa e isto passa, claro está, por coisas como a inovação, o conhecimento ou a aprendizagem ao longo da vida.
Augusto MateusVida EconómicaEtiquetas: Augusto Mateus, Economia, José Sòcrates, Ministro
5.162 milhões de euros de fundos comunitários não utilizados
De acordo com dados apresentados na 11ª reunião da Comissão de Acompanhamento do 3º QCA, que se realizou em 16 Março de 2007 no Estoril, até ao fim de 2006 tinham sido utilizados apenas 74,8% dos fundos disponibilizados pela U.E. a Portugal até àquela data, ficando por utilizar 5.162 milhões de euros de fundos comunitários. Este valor é superior ao não utilizado até ao fim de 2004 (4.344,4 milhões de euros) e até ao fim de 2005 (4.602,9 milhões de euros). Portanto, os atrasos têm aumentado de ano para ano. Este facto tem tido graves consequências para o País. O atraso médio de dois anos na utilização dos fundos comunitários tem determinado uma perda média no poder de compra destes fundos que calculamos em 250 milhões de euros por ano, o que dá, para o período de 6 anos que devia corresponder à vigência do 3º QCA, 1.500 milhões de euros. Para além disso, devido à chamada “Regra N+2”, já se verificou a perda definitiva de 20,5 milhões de euros de fundos comunitários devido ao facto de não terem sido utilizados dentro do prazo máximo de 2 anos a contar do ano em que estava programada a sua utilização. Finalmente, o atraso médio de 2 anos na utilização dos fundos comunitários tem determinado o agravamento dos problemas do País (basta recordar as consequências da grave quebra no investimento) e maiores sacrifícios para os portugueses.
Se a análise for feita por grande grupos de programas, conclui-se que no fim de 2006 ficaram por utilizar 1.090,8 milhões para “Elevar a qualificação dos portugueses”; 1.305,7 milhões de euros para “Alterar o Perfil Produtivo em actividades do futuro”; 422,5 milhões de euros para “Afirmar a valia do território e da posição do País”; e 2.323,7 milhões de euros para o “Promover o desenvolvimento sustentado e a coesão social”. Em resumo, todas elas áreas fundamentais para o desenvolvimento do País, em que se verificam grandes atrasos e insuficiências; por isso, a não utilização, quando isso era possível, pois os fundos tinham sido disponibilizados pela União Europeia, contribuiu para o agravamento da situação do País.
Uma área em que a política do governo tem sido fortemente penalizadora para o País e para os trabalhadores é a da Administração Pública. Existe um programa – POAP – cuja execução é da responsabilidade directa do governo. Apesar de existirem fundos disponibilizados pela U.E., em 2004 e 2005 o governo não utilizou nada (a execução foi ZERO). No fim de 2006, a taxa de execução era apenas de 48,3%. Para além disso, o governo neste programa retirou 19 milhões de euros para a iniciativa governamental muito mediatizada chamada “Novas Oportunidades”, reduzindo ainda mais o valor destinado ao aumento da qualificação dos trabalhadores da Administração Pública (sem esta redução a taxa de execução seria somente de 39,5%). Por um lado, o governo não se cansa de repetir que é necessário aumentar a qualificação dos trabalhadores da Administração Pública dizendo que isso é essencial para o País, lança trabalhadores no chamado “Serviço Especial de Mobilidade”, que é uma antecâmara de despedimento, ameaça ainda com mais despedimentos, dizendo que aqueles que tiverem duas avaliações negativas perdem o emprego. Por outro lado, ou não utiliza os meios disponibilizados pela U.E. para o aumento da qualificação dos trabalhadores ou desvia-os para outros campos, impedindo dessa forma o aumento da qualificação dos trabalhadores da Administração Pública, criando assim condições para lançar mais trabalhadores no desemprego.
Uma outra conclusão importante e lesiva para o País da forma como estão a ser utilizados os fundos comunitários é a seguinte: as empresas mais beneficiadas com os fundos, a nível de introdução da inovação e de factores de competitividade, têm sido empresas estrangeiras. No relatório de execução do Prime de 2003 (pág. 98) pode-se ler a seguinte conclusão: «As empresas de capital estrangeiro polarizam-se, sobretudo, em torno dos factores competitivos mais exigentes, isto é, economias de escala, diferenciação do produto e intensidade em I&D, que, em conjunto, concentram mais de 74% do investimento apoiado». E no Relatório de Execução de 2005, divulgado em 2006, pode-se ler na pág. 219, o seguinte: «Os projectos apoiados pelo Programa apresentam uma importante polarização nas actividades organizadas em torno dos factores competitivos menos avançados e mais vulneráveis em termos da concorrência internacional, explorando o acesso favorável a recursos naturais ou o baixo custo do trabalho». E «os projectos apoiados pelo programa apresentam uma muito importante polarização nas actividades de nível tecnológico menos exigente desenvolvendo processos de baixa e média tecnologia». Parece assim claro que a modernização e o aumento da competitividade da maioria das empresas portuguesas não está a ter lugar.
Eugénio Rosa
Etiquetas: Economia, Europa, Portugal, QCA
Que futuro para a economia da Região Norte?
Para compreender os principais problemas estruturais com que se defronta a economia da Região Norte, importa definir em primeiro lugar quais as especificidades que apresenta face ao todo nacional para, em seguida, à luz da actual situação da economia nacional, detectar quais as principais consequências para o Norte e procurar vias de resposta face à situação diagnosticada.
O que é que distingue, então, a economia da Região do Norte no contexto nacional?
Em primeiro lugar, a Região Norte é uma região altamente industrializada, tanto pelos padrões nacionais como a nível europeu. Representa cerca de metade do emprego industrial do País e é, na União Europeia, a região com um maior peso do emprego industrial no emprego total. A sua indústria está particularmente concentrada em sectores tradicionais produtores de bens de consumo corrente, com um padrão de especialização muito orientado para a exportação. Quase metade das exportações nacionais de produtos industriais são provenientes da Região Norte. A Região apresenta assim uma particular vulnerabilidade relativamente à conjuntura internacional e às condições de concorrência nos mercados externos.
Em segundo lugar, a Região Norte tem vindo a agravar o atraso relativo que regista, face à média europeia e face à média nacional: segundo o Eurostat, entre 1995 e 2000, a Região Norte viu o seu nível de PIB per capita deteriorar-se de 59% para 56% da média da União Europeia. De acordo com o INE, no período entre 1995 e 1999, o recuo foi de 85% para 81%, relativamente à média nacional.Aprofunda-se assim um quadro global em que a produtividade do trabalho é, em média, mais reduzida do que no País (em cerca de 17 por cento) e, portanto, o rendimento disponível das famílias fica, nesta Região, aquém do rendimento distribuído, em média nacional.
Em terceiro lugar, a Região Norte foi sistematicamente desfavorecida no que diz respeito ao investimento público. O Norte foi, durante largos anos, até 2002, a região NUT II do Continente a que correspondeu uma menor verba do PIDDAC por habitante. Só em 2002 é que a despesa do PIDDAC por habitante da Região Norte ultrapassou a de Lisboa e Vale do Tejo, facto a que não será estranho o facto desta região ter passado a receber uma menor parcela dos fundos comunitários, em virtude do regime de phasing out a que está sujeita. Ainda assim, a capitação da despesa do PIDDAC para a Região Norte não ultrapassou a média nacional.
Também ao nível da distribuição regional dos Quadros Comunitários de Apoio, a Região Norte foi discriminada negativamente. Tanto no primeiro como no segundo QCA, a Região Norte foi a que obteve, relativamente ao seu peso no total nacional, a verba mais reduzida. Já relativamente ao QCA III, a situação é substancialmente diferente, dado o estatuto especial aplicado a Lisboa e Vale do Tejo. A Região Norte passou finalmente a beneficiar de uma dotação per capita superior à média nacional.Finalmente, embora a dinâmica empresarial continue a ser uma potencialidade distintiva da Região e de serem já muitos os casos de empresas e grupos empresariais do Norte que têm demonstrado sucesso nas suas estratégias de internacionalização e na sua adaptação ao novo ambiente de globalização da economia mundial, as estatísticas mais recentes indicam que a Região tem perdido importância na base industrial do País, essencialmente porque ganharam peso alguns grandes projectos de investimento estrangeiro, apoiados contratualmente pelo Estado, situados a Sul e muito orientados para as exportações.
Traçadas as grandes linhas que definem a especificidade do Norte no contexto nacional, de que forma é que as principais tendências de evolução da economia portuguesa condicionam o futuro da economia desta Região?O modelo de crescimento da segunda metade dos anos noventa, impulsionado pela procura interna, favoreceu particularmente o sector dos serviços, nos quais a Região Norte apresenta um significativo défice. Pelo contrário, a indústria transformadora foi relativamente prejudicada.
Neste período, em vez de ser o sector de bens transaccionáveis — condicionado pela exposição à concorrência internacional — a sinalizar a progressão dos salários nominais na economia, constatou-se o inverso. O sector dos bens e serviços protegidos da concorrência internacional (onde se destaca a Administração Pública) assumiu uma excessiva visibilidade nas negociações salariais, a maior parte das vezes com resultados desajustados à realidade concorrencial dos sectores extrovertidos da economia nacional.
Em suma, a competitividade dos sectores abertos à concorrência internacional foi fortemente penalizada. Esta situação prejudicou sensivelmente a Região Norte, dada a forte concentração nos sectores produtores de bens transaccionáveis que apresenta, tanto ao nível da produção como do emprego. Presentemente, a crise por que estamos a passar está a conduzir à perda de empregos nestes sectores, não sendo o sector dos serviços – ainda sub-representado na região Norte e com um dinamismo relativamente fraco – capaz de gerar postos de trabalho em número suficiente para compensar aquela perda.
Que conclusões retirar de tudo isto?
Em primeiro lugar, as consequências do modelo de crescimento económico dos anos noventa aconselham a defender para a Região Norte a manutenção de uma sólida base produtiva radicada na Indústria, sector onde se encontra a nossa vocação, as nossas vantagens competitivas, a nossa tradição e o essencial do nosso know how, para sustentar o desenvolvimento económico regional e nacional e continuar a constituir o principal elo da integração da economia portuguesa na economia europeia e mundial. É da exportação de bens provenientes da indústria transformadora do Norte que obtemos do exterior a maior parte dos recursos indispensáveis à elevação do nível de bem-estar económico de que dispomos, sem incorrer em graves desequilíbrios das contas externas.
O ranking das regiões europeias mais industrializadas mostra que um elevado peso do emprego industrial não significa necessariamente atraso económico, por não se seguir a tendência para uma mais forte terciarização da economia, que verificamos sobretudo em torno das grandes capitais europeias e dos principais centros financeiros: a maior parte das regiões europeias mais industrializadas situam-se entre as que possuem níveis de vida mais elevados e mesmo as que estão abaixo da média comunitária contam-se entre as que registam um crescimento mais rápido.
Em segundo lugar, é hoje reconhecido que a retoma económica em Portugal terá de se basear na sua capacidade exportadora. A competitividade da Indústria deverá estar, assim, no cerne das preocupações dos decisores políticos nacionais.O que sucede é que a Indústria nortenha enferma de baixos níveis de competitividade, não sendo ainda capaz de reter na Região uma grande parte do valor acrescentado potenciado pela sua produção.
Ainda que, mesmo nos sectores ditos tradicionais, a qualidade dos produtos, a capacidade de respeitar prazos de entrega cada vez mais rigorosos, a flexibilidade das linhas de produção, a capacidade para absorver novas tecnologias sejam já (e cada vez mais) os trunfos para captar e fidelizar o cliente estrangeiro, relegando a competitividade-preço para um papel secundário, torna-se necessário adquirir novos factores de competitividade, sobretudo no que respeita ao marketing e a toda a função comercial, mas também ao nível da capacidade de concepção de produtos (aspectos aliás interligados). Só assim será possível controlar toda a cadeia de valor, até ao cliente final, adquirir autonomia face aos grandes sub-contratadores e reter uma parcela mais alargada do valor acrescentado.
É neste sentido que deve actuar a política industrial, contribuindo para o sucesso e fazendo acelerar um processo de mutação da Indústria que, acreditamos, está já em marcha.Em terceiro lugar, é urgente eliminar os bloqueamentos infra-estruturais e relacionados com a qualificação dos recursos humanos que ameaçam condicionar esse mesmo processo, no que respeita concretamente a Região Norte.
Finalmente, importa criar internamente as condições para uma verdadeira internacionalização da Região Norte, não só no sentido de apoiar o reforço da presença das suas empresas nos mercados externos, mas sobretudo com vista a inserir o Norte de Portugal nos grandes circuitos de negócios internacionais, como Região europeia que conta, como Região europeia que interessa visitar e onde interessa estabelecer contactos, como Região europeia onde há oportunidades a explorar.
Para tal, é indispensável que a Região disponha de infra-estruturas – sobretudo portuárias e aeroportuárias – de dimensão e qualidade compatíveis com esta imagem internacional que se pretende transmitir. É também importante valorizar o papel do sector do Turismo no apoio a um novo tipo de posicionamento internacional da Região Norte, desenvolvendo todas as potencialidades que o Turismo de Negócios apresenta e ultrapassando de uma vez por todas a mediocridade da imagem que muitas vezes ainda é transmitida do Norte, unicamente como local remoto e pitoresco para umas férias tranquilas.
Por último, a captação de investimento directo estrangeiro deverá constituir outro objectivo para a estratégia de desenvolvimento da Região Norte. A iniciativa empresarial endógena é dinâmica, mas tende a reproduzir a estrutura sectorial pré-existente. O IDE é assim fundamental para a diversificação da sua base industrial, tornando-a menos vulnerável à concorrência das economias emergentes.
Ludgero Marques, 2003Etiquetas: Economia, Ludgero Marques, Negócios, Norte
Norte à beira da última oportunidade
"O Norte está no seu pior momento". A frase é do presidente da Comissão de Coordenação do Norte (CCDRN), Carlos Lage, mas basta olhar para alguns indicadores económicos e percorrer as ruas das maiores cidades ou das vilas mais pequenas para se perceber que a base económica tradicional está a desaparecer e que o peso dos seus representantes políticos é cada vez menor. No global, vive-se hoje pior no Norte do que há uma ou duas décadas e a qualidade de vida não pára de diminuir.
Há vinte anos, o Norte ostentou o título de uma das dez regiões mais industrializadas da Europa, lembra Valente de Oliveira numa entrevista a publicar amanhã; em 2004 (últimos dados disponíveis), estava em quarto lugar, mas no ranking das mais pobres e a uma distância cada vez maior dos parceiros europeus. Entre os Quinze, só três regiões (todas elas gregas) produzem menos riqueza por habitante.
A completa reviravolta no nível de vida das populações também é óbvia quando se olha só para Portugal. Há uma década, o Norte estava à frente do Centro e Açores e empatado com o Alentejo; em 2004 foi, de longe, a que menos riqueza por habitante produziu.
Tão sustentada tem sido a decadência económica dos últimos anos, com impacto directo na qualidade de vida das gentes, que há investigadores a duvidar da sua capacidade de recuperação. É já claro que acabou o modo de vida que fez do Norte a região mais rica de Portugal. O que se segue pode ser uma espiral de perda, da qual dificilmente se sairá. Ou uma nova filosofia de trabalho que volte a fazer do Norte um motor económico do país.
Depois do diagnóstico
Todos os avisos estão feitos e todos os caminhos apontados. E até o dinheiro necessário vai ser posto no colo das gentes do Norte por Bruxelas. O Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN) será o último grande pacote financeiro a que Portugal, e o Norte, terão direito. Se repetir o que fez nos últimos 20 anos e desperdiçar esta verba, de 2,7 mil milhões de euros, poderá nunca mais encontrar oxigénio suficiente para sobreviver.
Quanto ao que fazer com os milhões de Bruxelas, as soluções são relativamente consensuais e passam sobretudo por produtos e formas de trabalhar inovadoras, de valor acrescentado. É precisamente o que têm feito algumas empresas, até dos sectores em crise como o têxtil e o calçado, mas não a vasta maioria, que já começou a desaparecer e a arrastar o Norte para o mais alto nível de desemprego do país.
A nível político, descentralização é a palavra mais ouvida, seja através da transferência de competências para entidades mais próximas dos cidadãos, seja pondo no terreno a regionalização. Antes dessa transferência (ou no seguimento dela, defendem alguns especialistas) são precisos líderes capazes de reunir competências em torno de objectivos comuns - um apelo repetido, mas ainda com pouco impacto prático.
Bairrismos à parte
Para que as soluções cheguem ao terreno é primeiro preciso que todo o país, e não apenas a região, tome consciência da perda global que representa um Norte fraco e deprimido. "É uma questão nacional, não regional", lembra a deputada europeia Elisa Ferreira. É por causa do mau desempenho da economia nortenha que Portugal recebeu uma nota negativa na caderneta comunitária, no ano passado. E tudo indica que, pelo menos em alguns indicadores, a situação ficará pior antes de melhorar. É o caso do agravamento do desemprego na região, dado como certo por várias pessoas ouvidas neste trabalho e cujo impacto esperado nas contas nacionais o torna uma prioridade para todo o país.
O Norte alberga dois terços dos trabalhadores e responde, ainda hoje, por 30% de toda a riqueza nacional. Não é, por isso, possível esquecer a coesão nacional e pedir um país moderno. E pensar que o Norte é o Porto, deixando de lado o Minho, a raia com Espanha, o Douro ou Trás-os-Montes é desfocar o problema.
Os governos têm olhado demasiado para o próprio umbigo para atalhar a crise enquanto é tempo; e os agentes da região desperdiçaram apoios de Bruxelas e têm-se perdido numa miopia pedinchona, sem capacidade para criar dinâmicas virtuosas. Mas tempo é um luxo cada vez mais escasso. E as oportunidades também.
in JN2007/05/01Etiquetas: Economia, Europa, Norte, Regionallização